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| 09/07/09 |
| Pólo de Informática vive a sua maior crise econômica |
| Criado em 1995, o Pólo de Informática de Ilhéus, vive a sua maior crise de identidade. E econômica também. Muitas unidades já fecharam as portas e as que permanecem abertas estão muito próximas – no limite, talvez - das dificuldades financeiras geradas pela crise mundial e refletidas nos valores dos componentes eletrônicos que chegam de várias partes do planeta. Aliado a tudo isso, o Pólo sente-se sem representatividade política e entregue à própria sorte. O sonho de redenção econômica construído há quase 15 anos corre riscos de se tornar um pesadelo de uma cidade inteira que viu neste projeto a oportunidade de recomeçar, após a crise na agricultura provocada pela “vassoura-de-bruxa”, doença que atingiu os cacauais sulbahianos e deixou muitas cidades sem destino e sem futuro. O Pólo de Informática de Ilhéus “travou”, usando uma linguagem figurada, própria e comum aos computadores. E Ilhéus, que já representou uma boa fatia da produção nacional de PCs, agora tenta conter a debandada das indústrias para o interior de Minas Gerais, onde há planejamento, união política e vontade que o projeto se consolide como trampolim econômico e social de uma região. O caminho de volta que preocupa Nascido em Santa Rita do Sapucaí, no interior mineiro, o atual presidente do Sindicato das Indústrias de Eletro-eletrônicos de Ilhéus (Sinec), Gentil Pires, explica que pelo menos metade dos seus parentes vive, há anos, do setor eletro-eletrônico. Em Santa Rita, todas as bases foram preparadas para construir o futuro de muitas gerações. Em Ilhéus, na cidade onde escolheu para morar, Gentil tenta resgatar a vontade de fazer acontecer, propondo parcerias, iniciativas e um pacto para que o Pólo de Ilhéus seja reconhecido como importante e fundamental para a economia da cidade e da região sul da Bahia. Até 2006, quando Santa Rita do Sapucaí não oferecia incentivos fiscais, o município – com 40 mil habitantes – já era considerado o “Vale da Eletrônica” e possuía cerca de 100 empresas do ramo. Hoje, com incentivos, o número dobrou. Muitas indústrias de informática da cidade que nos anos 90 vieram para Ilhéus, atraídas pelos benefícios fiscais, já fizeram o caminho de volta, como a Waytec e Sense. Pires atribui a consolidação do pólo mineiro a dois fatores: cultura – que ainda não é a grande marca do pólo de Ilhéus – e conhecimento. Santa Rita, mesmo antes de formatar o projeto “Vale da Eletrônica”, investiu em escolas técnicas voltadas a projetos tecnológicos. Preparou os alicerces como se faz numa obra de construção civil. “Precisamos investir mais nisso. Nós, infelizmente, não temos empresas de tecnologia que nos garantam este caminho a curto prazo”, afirma Gentil Pires. Cidade precisa de investimento em infra-estrutura Mas em Ilhéus, decididamente, o investimento não passa apenas pela criação de cursos superiores e técnico-profissionalizantes. A cidade não tem sequer um Distrito Industrial em condição decente que possa ser apresentado e que sirva de estímulo a novos investidores. Por conta da limitação de vôos no aeroporto local, para um empresário participar de uma reunião na cidade ele precisa permanecer fora do seu domicílio por três dias, no mínimo: um para chegar, um para se reunir e outro para ir embora. “Faltam-nos infra-estrutura, atitude com planejamento e até representação política”, revela Gentil Pires. E quando sobram problemas, as dificuldades ganham dimensões surpreendentes e inimagináveis. Ele lembra que nos primeiros sinais de dificuldades do Pólo de Informática os empresários procuraram o estado em busca de ações políticas e, até, aporte de recursos para garantir a sobrevivência de grande parte das montadoras, algumas, hoje, já fechadas. Ficou definido que as primeiras intervenções ocorreriam em março. Mas nada, até o momento, foi feito. E não há nova perspectiva de quando irão começar. Com a crise mundial também chegou a crise do crédito. Quase 100 por cento das montadoras estão no perfil de pequenas e médio portes e necessitam de capital de giro. O governo estadual chegou a abrir uma linha de crédito que, segundo os empresários, “tinha juros maiores que o de mercado, valor limitado de empréstimos até para quem tinha capacidade de pagamento e prazo curto”. Ninguém arriscou. Montadoras sentiram a crise mundial A crise local deu os primeiros sinais no ano passado. As empresas que já vinham se descapitalizando, alegam que sentiram o reflexo da greve de 59 dias da Receita Federal – que é responsável pela liberação alfandegada dos componentes eletrônicos. “O movimento deles foi encerrado em julho e já em setembro estourou a crise mundial”, explica Gentil Pires, destacando que enquanto o governo de Minas Gerais ofereceu apoio às montadoras de lá, as daqui tiveram que buscar caminhos isolados para não fechar as portas. Algumas não conseguiram. Das 75 montadoras que já compuseram o pólo, o Sinec tem apenas o controle sobre as que são associadas a ele e ainda permanecem em funcionamento: 37. Seis fecharam nos últimos meses. Excesso de fiscalização afugentou emprésários Alguns empresários ouvidos pelo Jornal Bahia Online fazem queixa do tratamento recebido. “Estou voltando para Minas por que lá não preciso provar que sou empresário. Aqui, foi o tempo todo precisando provar que não era desonesto”. As maiores queixas recaem sobre as constantes ações de fiscalização nas empresas. “Não há problema em sermos fiscalizados. É uma tarefa do governo. O que defendemos é que esta fiscalização seja isonômica. Em Minas passei por uma fiscalização em três anos. Aqui foi o inverso: em um ano fui fiscalizado três vezes”, queixa-se o empresário que pediu para não ser identificado, temendo represálias. Se por um lado os empresários reclamam do tratamento recebido, do outro a cidade questiona a importância do pólo para a economia local. Durante muito tempo as montadoras que chegaram de outras regiões brasileiras em busca da isenção fiscal foram consideradas “ciganas”. Não se preocupavam em construir sedes próprias, demonstravam pouca identidade com a cidade e diante de qualquer pressão ameaçavam fechar as portas e ir embora. Muitos acreditavam que ao final do benefício – previsto para 2019 - todas retornariam às suas regiões de origem. De fato, isso já começa a acontecer. Mas, hoje, não se sabe se pela falta de compromisso das empresas ou pela crise e a falta de estrutura e logística da cidade. Ações prejudicaram imagem do Pólo O pólo também viu, ao longo dos quase 15 anos, sua imagem em xeque com ações midiáticas da Polícia e da Receita Federais, com repercussão em todo o Brasil. Para Gentil Pires, as ações provocaram descrédito ao pólo e terminaram penalizando os empresários sérios. Vice-presidente do Sinec, o consultor Paulo Machado afirma que algumas das ações se concretizaram por falta de conhecimento do que seja o pólo de Ilhéus. “Não tenho informação se alguma das empresas investigadas já tenha sido sentenciada ou algum inquérito tenha sido concluído”, assegura. No ápice de sua produção, o Pólo de Informática de Ilhéus chegou a montar 15 por cento dos PCs produzidos no Brasil. Por conta desta performance, a prefeitura – detentora de um orçamento de 10 milhões - recebia somente de repasse de Imposto Sobre Circulação de Mercadoria (ICMS) cerca de 2 milhões de reais por mês. Mas nos últimos meses a queda chegou a 40 por cento no repasse. Montadoras nas mãos da Zona Franca Hoje, nem mesmo o Sinec diz saber qual a produção oficial. Justifica o desconhecimento, informando que existem vários fatores que impedem esta projeção. É que, de acordo com a lei, para manter os incentivos é preciso comprar componentes eletrônicos em território nacional onde as opções, infelizmente, são bastante limitadas. Na Zona Franca de Manaus, por exemplo, existem apenas 3 fabricantes de Placas-Mãe. E no Brasil inteiro, apenas uma de Hard Disk (HD). No país não há fabricantes de processadores. “O Pólo fica nas mãos destas empresas e elas escolhem quem fica no mercado limitando produtos e produção”, lamenta o presidente do Sinec. “Por isso temos meses de grande produção e outros de quase nada”, reforça Paulo Machado. A queda nos números também é refletida no quadro de demissões com forte impacto no Cadastro Geral dos Empregados (Caged). Ilhéus caminha na contramão da evolução de vagas no mercado funcional baiano. Enquanto o estado, segundo o governo, acumula 17 mil novos empregos formais no ano, Ilhéus é a cidade campeã em desemprego na Bahia. E a maior parte das demissões ocorreu no setor de transformação. O pólo que chegou a gerar 2 mil empregos diretos, demitiu, entre outubro do ano passado e janeiro deste ano, cerca de 600 trabalhadores. A luz no fim do túnel Para Gentil Pires, apesar da crise, há uma luz no fim do túnel. “O mercado de desktop (PCs) no sul do País está perto de atingir o seu ápice. Hoje os mercados mais promissores são as regiões nordeste e centro-oeste, onde muita gente ainda não dispõe de um computador. “Ilhéus é a porta de entrada deste mercado e essa pode ser a grande oportunidade do nosso pólo”, reflete. Mas para retomar a uma produção satisfatória e rentável, o pólo precisa urgentemente de uma política pública de atração de novas indústrias e o compromisso do governo estadual em consolidar a região neste novo perfil de desenvolvimento, com obras de infra-estrutura. Machado critica, por exemplo, o fato de o governo baiano anunciar um Parque Tecnológico para Salvador e não para o sul da Bahia. Na opinião dele, desta forma o governo não soma. Divide oportunidades de negócio e concentra riqueza na Região Metropolitana. Governo divide “Veja o que acontece em Campinhas (interior de São Paulo). A cidade tem um parque de desenvolvimento de hardware e outro de software. Tem universidades e cursos técnicos preparados para atender a esta demanda. Tudo funciona integrado e dá certo”, destaca. Para Machado, isso é possível de acontecer no sul da Bahia, conquistando um aeroporto internacional com terminal alfandegado e pista que permita pouso de aviões com capacidade de grandes cargas, buscando novos compromissos com a Universidade Estadual de Santa Cruz e direcionando o Instituto Federal de Educação Tecnológica (Ifeti), previsto para ser implantado em Ilhéus, para cursos que atendam a demanda da mão-de-obra regional. E critica: “formaram uma comissão para discutir esses cursos. A comissão é somente composta por acadêmicos. A iniciativa privada não foi convidada a opinar”. De acordo com a lei aprovada na Bahia, as montadoras do pólo devem destinar um percentual do seu faturamento para o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Tecnológico e Informática de Ilhéus (Cepedi), que funciona nas antigas instalações do antigo Terminal da Petrobras, no centro. Lá estão sendo desenvolvidos alguns projetos de Ilhéus e até de fora do estado. Através de cursos no Cepedi, saíram recentemente para o mercado 30 novos programadores. Apenas 3 resolveram permanecer na cidade. Os demais foram tentar a sorte noutro lugar. Sucesso do pólo não pode ser virtual Para Gentil Pires e Paulo Machado, é preciso transformar em real o que hoje ainda é virtual. Um pólo de informática que dê estabilidade aos jovens trabalhadores da região e consolide as empresas em um Distrito Industrial planejado, estruturado e preparado para receber novos investimentos. E que assegure para a cidade de Ilhéus a continuidade de boa parte da produção nacional de computadores. Com a marca de um trabalho sério e profissional. Consolidado, eficiente e de referência para a Bahia e para o Brasil. |
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